Neste post, vou
falar do cancro da mama.
Vejo muitos posts
falando disso numa perspetiva clinica, mas não vi ainda algum falando de uma
coisa muito simples: o que dizer aos nossos filhos? Como se vive essa doença
com crianças pequenas? Tenho 40 anos e duas filhas pequenas, dois raiozinhos de
sol em minha vida, o que dizer-lhes? Como se vive com a tristeza dentro do
peito, com o medo de não estar cá mais algum tempo, e tenta-se sorrir para os
nossos filhos? É difícil. Não há nenhum manual que nos diga como fazer. Não há
nada que nos possa alguma vez preparar para tal.
Vou contar a minha
história.... e deixar uma mensagem de esperança a todas e todos que passam por
esta terrível doença. Esperança, sim, pois ainda cá estou!
O Pai Natal foi um
malandrinho.
Pôs-me um cancro no
sapatinho.
Pai Natal, pai
Natal
O que é que eu fiz
de mal?
Tenho uma mãe que é
um espinho
E agora levo com um
cancrozinho?
O mês de Dezembro
de 2011 não estava a correr mesmo nada bem!
Andava um bocado
stressada há cerca de um mês.
A minha maminha
estava a preocupar-me. Apalpava, apalpava e sentia algo de sólido. Não me
estava a agradar nada. Mas pensei com os meus botões, tenho que marcar uma
consulta, pode ser um nódulo ou um quisto.
Quando vou para
marcar a consulta, a Nita arranja uma pneumonia! Fiquei aflita, mas ía correr
bem, bastava tomar antibiótico durante quinze dias e não era preciso
interná-la.
Logo que a Nitinha
ficou boa e regressou ao colégio, marquei uma consulta de ginecologia com a
máxima urgência.
Quem me marcou a
consulta, entendeu a minha urgência! No
espaço daquelas duas semanas, o meu mamilo começou a repuxar e a descolorar.
No dia da consulta,
estou a tremer com medo do que me vão dizer. Com a barriga ás voltas, entro
para o gabinete do médico e explico porque estou ali. Ele não me conhecia, não
era o meu ginecologista habitual. Ele atendera á minha urgência.
Enquanto ainda
estamos apenas a falar, ele diz-me que vamos fazer exames para ver do que se
trata. E depois pede-me para me despir, para ver a minha maminha.
Ele viu.
Ele saiu.
Ele voltou com
outro médico.
Eles olharam um
para o outro.
Eu olhei para eles.
O médico que veio
depois indicou os exames a pedir.
Os exames eram para
"ontem".
O meu médico saiu.
O meu médico voltou.
Os exames já
estavam marcados para dali a dois dias.
Eu sai com os
pedidos de exames.
Eu fui ter com o
meu marido.
Eu chorei.
E chorei.
Ninguém pronunciou
a terrível palavra.
Mas eu cheguei ao
pé do meu marido sabendo.
Dali a dois dias
fui fazer o batalhão de exames que me tinham sido pedidos. Saí de casa ás sete
da manhã, voltei ás onze da noite. Cansada. Desanimada. Triste.
Os resultados dos
exames foram entregues com a máxima rapidez. O médico que viera depois
encaixou-me numa consulta de urgência.
No dia marcado, lá
fui eu á consulta com o meu marido.
- Boa tarde Doutor!
- Boa tarde. Já
temos os resultados dos exames. Minha querida, é preciso dizer o que é?
- Não doutor... não
é. Na semana passada, quando vi a sua cara, fiquei a saber.
- Pois é, você fez
como a avestruz e agora temos aqui um cancro e pêras!
- Olhe que não
doutor. Ainda no ano passado eu fiz os exames de rastreio, como uma menina bem
comportada. Isto surgiu neste ultimo mês e meio!
- Temos um cancro
galopante!
- Diga-me doutor,
quais são as hipóteses? - pergunta o meu marido muito aflito e com os olhos a
brilhar imenso.
O médico olhou para
o meu marido, sacudiu a cabeça, e diz-lhe:
- Não lhe posso
dizer. Cada doente reage do seu jeito a um tratamento. Só lhe posso dizer que
vamos fazer os impossíveis. Serei eu a operar, mas com o tamanho que o cancro
tem, não posso operar já, vamos ter que fazer quimioterapia neoadjuvante para o
diminuir e torná-lo operável. Depois disso seguir-se á a radioterapia.
- Se eu me safar,
quanto tempo vai demorar o tratamento? - pergunto eu.
- Cerca de nove a
dez meses. Vamos já marcar uma consulta de oncologia, e volta para mim quando
for para a operação.
A sentença estava
ditada. Tinha uma espada de morte por cima da minha cabeça.
Como dizer ás
minhas filhas?
Como dizer-lhes que
a mãe está muito doente, tão doente que pode não continuar cá para elas?
Nunca se está
preparado para morrer!
Com 40 anos não se
está a pensar na morte. Com 40 anos temos ainda montes de força e projetos.
Temos planos e perspetivas. Imaginamo-nos com os nossos filhos e depois com os
nossos netos. Imaginamos uma vida e momentos futuros com as pessoas que amamos.
De um dia para o outro cai tudo por terra. Dizem-nos que isso pode nunca passar
de nossa imaginação, dizem-nos que poderemos não estar cá para viver esses
momentos imaginados.
Por isso, vamos á
luta!
Durante vários
dias, durante várias semanas, só pensava em como era injusto! Só pensava nos
meus amores, queria mais tempo... mais tempo com o meu marido, mais tempo com
as minhas filhas. Mais tempo!
Durante várias
semanas, eu chorei. Meu marido chorou. Nossas filhas perguntavam-nos porque
estávamos tão tristes?
Certo dia, acordo
com outro estado de espirito. Chega de chorar! Chega de lamuriar!
Vou ter com o meu marido
e digo-lhe:
- Não vou encarar a
doença como o fim do mundo. Eu podia estar a vender saúde e ao atravessar a
estrada ser atropelada por um camião. Finava-me e acabou-se. Vou encarar o
cancro como um camião que está a vir na minha direção, mas como o estou a ver,
vou tentar não ser atropelada!
Os momentos que
eram mesmo muito complicados emocionalmente - apesar de todos o serem - era
quando as minhas filhinhas, sobretudo a mais nova, olhava para mim e dizia:
- Ó mãe tu vais
ficar boa?
- Não sei filha.
Vou fazer tudo por isso.
- Se não ficares
boa vais morrer?
- Muita gente morre
desta doença filha. Mas o que a mãe te vai prometer é que vai lutar contra a
doença, como uma Leoa!
- Mamã eu amo-te
muito, não quero que tu morras.
- A mamã também te ama muito.
Invariavelmente eu
desatava a chorar. A maior parte das vezes tentava esconder delas, mas nem
sempre conseguia. Dizia-lhes então, quando apanhada com os olhos marejados de
lágrimas, que estava a fazer "uma grande birra"!
A minha filha
Nocas, mais velhinha, mas não muito, pergunta-me afinal que doença eu tenho. Falo
com ela a sós para a maninha não ouvir.
- A doença que a
mamã tem, chama-se cancro.
Ela olha para mim.
Não sabendo ainda muito bem o que significa "o cancro", tem ideia de
que é muito mau. E chora.
- Mamã, diz-me a
verdade, vais ficar boa ou podes morrer disso?
- Espero ficar boa.
Mas é uma doença terrível.
- Os médicos
disseram que ías ficar boa?
- Não. Eles também
não sabem.
E ela chorou mais
ainda.
- Mamã, se morreres
o que vai ser de mim? Preciso tanto de ti! Eu amo-te tanto!
- Eu também te amo
filha.
E nós chorámos...
Alguns meses antes,
havia pensado que qualquer dia telefonaria ao meu pai, até porque ele havia
cumprido com o que dissera: não nos incomodar e deixar-nos viver a nossa vida,
sem se intrometer. O tempo foi passando e ainda não o havia feito. Durante
anos, não falei com os meus pais. Não tinham aceitado o meu marido, não tinham
aceitado o nosso casamento. Fomos viver para longe deles, fomos fazer a nossa
vida, fomos viver o nosso amor, fomos ter os nossos filhos.
Passados anos, acabo
por pedir ao meu pai para á terra onde moramos para falarmos.
- Quando é que
queres que o pai vá aí?
- Para a semana,
pode ser? - não lhe queria dar uma noticia daquelas antes do Natal, não era
prenda para ninguém.
- Claro que pode.
E combinámos o dia.
E ele veio.
Encontrámo-nos num
café. Falámos sozinhos durante duas horas. Acertámos as nossas agulhas. Falei-lhe
da doença.
- Se quiseres fazer
parte da nossa vida, é agora, ou poderá nunca mais ser. Porém o passado tem de
ficar para trás. E o fazer parte de nossa vida implica falares com o meu
marido, ele é a minha vida.
- Falo com o teu
marido, desde que ele me trate bem, eu trato-o bem.
- Ninguém vos pede
para andarem aos beijinhos, nem eu que sou tua filha vou andar contigo aos
beijinhos. Ainda há muita mágoa. Mas como acabaste por nos respeitar como
prometeste, por isso estamos aqui. Pelo menos estamos a falar. Mas vou pedir-te
uma coisa.
Após termos falado
os dois, fomos ter com o meu marido. Estavam ambos bastante nervosos. Fizeram
um esforço mutuo para me fazer feliz.
O tempo foi
passando, eles foram-se conhecendo. Ironia da vida e teimosia das pessoas, com
o passar do tempo, descobriram que gostam um do outro.
Foi preciso um
cancro para o meu pai conhecer o genro e as netas!
Ele ficou encantado
por finalmente ver as minhas filhas, suas netas, seu sangue.
Numa próxima visita
de meu pai, avisei-o de que dali a pouco tempo iria ficar careca. Ía começar a
fazer a quimioterapia.
Como não tinha as
veias suficientemente boas para me injetarem o "veneno" nas veias,
tive que colocar um cateter. Doeu horrores. A anestesia local, não me impediu
de sentir o cateter a ser colocado e a roçar no osso. Nesse dia, dei-me conta
que o nosso corpo quando queimado cheira a carne de porco. O lazer a queimar a
minha carne, provocava um cheiro doce e enjoativo, a porco.
Dois dias depois, comecei
a minha primeira quimioterapia. O meu amor sempre do meu lado, passou o tempo
todo a dar-me forças. Cada tratamento durava mais de três horas. Três horas a
levar "veneno" para dentro das minhas veias, para dar cabo daquele
cancro que queria dar cabo de mim.
Um dia depois tinha
que levar uma injeção: o PEC. Os químicos iam dar cabo do que era mau - o
cancro - mas também do que era bom - os glóbulos brancos. Os meus soldadinhos
brancos íam ser destruídos. Por isso, tinha que levar aquela injeção, para dar
um "choque" na minha medula, para ela desatar a fabricar glóbulos
brancos.
Dei a injeção a mim
mesma. Tinham-me avisado que ía doer durante 48 horas.
Doía... e de que
maneira! Doíam-me todos os ossos do meu corpo, doíam-me os maxilares, doíam-me
os dentes, doíam-me as mãos, doíam-me as pernas, doía.... Conseguia sentir
todos os ossos do meu corpo... a doer! Os analgésicos apenas abrandavam a dor,
nunca a paravam. Até quando adormecia - cansada das dores - gemia!
Muitas vezes menti
ao meu marido.
- Está a doer amor?
- Não, os
comprimidos estão a fazer efeito.
Mentia por uma boa
causa.
Eu sofria de dor,
ele sofria por me ver sofrer. Eu não queria que ele sofresse.
Esse era o
primeiro. Já só faltavam mais cinco tratamentos como aquele.
Tinham-me avisado
que passadas duas semanas o meu cabelo caíria. Não queria que minhas filhotas
vissem o meu cabelo a cair. Por isso, avisei-as de que iria rapar o meu cabelo.
Vejo os olhos delas a brilhar. Brinco com a situação.
- Imaginem que a
mamã vai para a tropa. Se fosse soldado andaria de cabelo quase rapado.
Combinámos que
faríamos isso em família, num fim de semana. As minhas filhotas fizeram-me uma
caixinha, que pintaram e forraram com algodão. Chegaram-se ao pé de mim e
disseram-me:
- Mamã é para
guardares o teu cabelo.
Não consegui
resistir. Chorei!
- Mamã não chores -
diz-me a minha Nitinha.
- A mamã não está a
chorar, está a fazer uma birra!- digo eu para animá-la.
Vou para a cozinha,
e fecho a porta.
O meu sogro
rapou-me o cabelo. O meu marido entrava e saía. A minha sogra entrava e saía.
Estávamos todos nervosos e chocados. Eu sempre tivera o cabelo bastante
comprido. Cada tesourada, cada madeixa cortada, colocada com carinho dentro da
caixinha. Finalmente estava rapado.
Vou ter que ir
mostrar ás filhotas. Ai, ai!
Saio da cozinha com
uma falsa alegria e brinco com elas:
- Aqui estou eu, a
G.I. mamã!
A minha pequenota,
diz-me:
- Gosto mais de ti
com cabelo! - diz ela na sua inocência.
- Pois filha eu
também, mas agora vou para a guerra! E estou numa operação ultra-secreta, que
tem o nome de código "acabar com o bicho!".
Fazemos a segunda
quimioterapia exatamente no dia de anos da Nita.
Sim, fazemos, O meu
marido e eu fizemos os dois todas as quimioterapias. Como me disseram, o cancro
é uma doença da família, não era só minha. O meu papel era ter força suficiente
- e sorte - para sobreviver, mas a minha família também ía sofrer e ía viver a
minha doença.
Já só faltam
quatro.
Á saída do hospital
vamos a correr até ao infantil, para festejar os anos dela. Cansada mas feliz
por estar viva, ía festejar os seis anos da minha pequenota. Quem sabe se cá
estaria para festejar o próximo aniversário.
Com a segunda dose
de veneno, é que fiquei com o crânio lisinho que nem um rabinho de bébé! Fui
tomar um duche. Passo a mão pela cabeça, e vejo... tudo a cair! É verdade,
sabia que ía cair. É verdade, que tinha rapado o cabelo. Mas...
Sentei-me no chão
da banheira a chorar, com a água a cair do chuveiro para cima de minha
cabeça... careca.
Muito eu amo o meu
marido. Sim, sei que já lho disse um
milhão de vezes. Mas nunca o direi que chegue. Nunca em momento algum ele me
deixou pensar que eu era menos mulher, ou que era menos bonita. Era bonita aos
olhos dele quando tinha dois seios, continuo bonita aos olhos dele agora que só
tenho um. Era bonita quando tinha cabelo, continuei bonita careca. Era bonita
quando era magra, continuei bonita quando inchei.
Passados 4 meses
faço a sexta quimioterapia. O tratamento tem estado a fazer efeito. O caroço
tem vindo a diminuir. Não desapareceu, mas ficou mais pequeno. Podíamos operar!
Dali a um mês, a
operação!
Ai que não me
aguento de nervos!
Chegou o dia.
Vamos lá tirar este
bocado de carne. Vamos lá tirar esta coisa do meu corpo.
Nunca tinha feito
uma anestesia total. Foi a primeira vez. Só me lembro de estar a falar com a
anestesista e a fazer-mos umas piadas... e ... apagaram-se as luzes.
Acordo na sala de
recobro. Passado um bocadinho levaram-me para o meu quarto. Estavam lá á minha espera o meu rico marido e o irmão.
Eles estavam stressados, eu quando os vejo desato a rir e a brincar. Pudera!
Estava VIVA!
E nada como
sentir-se viva para ter uma fomeca. Qual chá qual quê! Eram onze da noite,
estava em jejum há quatorze horas.
Bem disposta e com
fome! Trouxeram-me um lanchinho reforçado. E adormeci...
Uma semana no
hospital, uma vontade terrível de voltar para casa.
Depois disso, ainda
havia a radioterapia a fazer.
Eu que sempre tinha
tido um cuidado extremo para não ir para a praia nas horas em que o sol está
mais forte, ía agora levar com uma boa dose de radiações! Vinte e cinco
sessões. A minha pele aguentou bem até á 20ª sessão. Depois tivemos rosbife mal
passado. A minha pele não aguentou mais... e queimou!
E depois sarou.
E ainda cá estou.
Cá estou, mas
marcou!
Não consigo ouvir
falar que alguém tem cancro que me dá vontade de chorar. Não consigo mais
passar á frente daquelas banquinhas que fazem peditório para angariar fundos
para a luta contra o cancro e ficar indiferente.
Muito ou pouco, dou
sempre qualquer coisa. Pouco a pouco se pode fazer muito. Não tivesse sido esse
"pouco a pouco" que muitos foram dando, eu hoje não estaria cá. Com
esse "pouco a pouco" podemos ajudar os nossos filhos, ou os nossos
netos. O cancro não acontece só aos outros. Pode acontecer a qualquer um de
nós. Aconteceu-me a mim.
Quando era mais
nova, certa vez vi um filme em que a mãe da protagonista principal, ficara com
cancro.
A filha perguntou á
mãe - Are you going to die?
- Not today! - foi a resposta da mãe.
... Not today!

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