quinta-feira, 28 de março de 2013

                                            Cancro da mama.


Neste post, vou falar do cancro da mama.

Vejo muitos posts falando disso numa perspetiva clinica, mas não vi ainda algum falando de uma coisa muito simples: o que dizer aos nossos filhos? Como se vive essa doença com crianças pequenas? Tenho 40 anos e duas filhas pequenas, dois raiozinhos de sol em minha vida, o que dizer-lhes? Como se vive com a tristeza dentro do peito, com o medo de não estar cá mais algum tempo, e tenta-se sorrir para os nossos filhos? É difícil. Não há nenhum manual que nos diga como fazer. Não há nada que nos possa alguma vez preparar para tal.


Vou contar a minha história.... e deixar uma mensagem de esperança a todas e todos que passam por esta terrível doença. Esperança, sim, pois ainda cá estou!


O Pai Natal foi um malandrinho.

Pôs-me um cancro no sapatinho.

Pai Natal, pai Natal

O que é que eu fiz de mal?

Tenho uma mãe que é um espinho

E agora levo com um cancrozinho?


O mês de Dezembro de 2011 não estava a correr mesmo nada bem!


Andava um bocado stressada há cerca de um mês.

A minha maminha estava a preocupar-me. Apalpava, apalpava e sentia algo de sólido. Não me estava a agradar nada. Mas pensei com os meus botões, tenho que marcar uma consulta, pode ser um nódulo ou um quisto.

Quando vou para marcar a consulta, a Nita arranja uma pneumonia! Fiquei aflita, mas ía correr bem, bastava tomar antibiótico durante quinze dias e não era preciso interná-la.

Logo que a Nitinha ficou boa e regressou ao colégio, marquei uma consulta de ginecologia com a máxima urgência.

Quem me marcou a consulta, entendeu  a minha urgência! No espaço daquelas duas semanas, o meu mamilo começou a repuxar e a descolorar.


No dia da consulta, estou a tremer com medo do que me vão dizer. Com a barriga ás voltas, entro para o gabinete do médico e explico porque estou ali. Ele não me conhecia, não era o meu ginecologista habitual. Ele atendera á minha urgência.

Enquanto ainda estamos apenas a falar, ele diz-me que vamos fazer exames para ver do que se trata. E depois pede-me para me despir, para ver a minha maminha.


Ele viu.

Ele saiu.

Ele voltou com outro médico.

Eles olharam um para o outro.

Eu olhei para eles.

O médico que veio depois indicou os exames a pedir.

Os exames eram para "ontem".

O meu médico saiu.

O meu médico voltou.

Os exames já estavam marcados para dali a dois dias.

Eu sai com os pedidos de exames.

Eu fui ter com o meu marido.

Eu chorei.

E chorei.


Ninguém pronunciou a terrível palavra.

Mas eu cheguei ao pé do meu marido sabendo.


Dali a dois dias fui fazer o batalhão de exames que me tinham sido pedidos. Saí de casa ás sete da manhã, voltei ás onze da noite. Cansada. Desanimada. Triste.


Os resultados dos exames foram entregues com a máxima rapidez. O médico que viera depois encaixou-me numa consulta de urgência.


No dia marcado, lá fui eu á consulta com o meu marido.


- Boa tarde Doutor!

- Boa tarde. Já temos os resultados dos exames. Minha querida, é preciso dizer o que é?

- Não doutor... não é. Na semana passada, quando vi a sua cara, fiquei a saber.

- Pois é, você fez como a avestruz e agora temos aqui um cancro e pêras!

- Olhe que não doutor. Ainda no ano passado eu fiz os exames de rastreio, como uma menina bem comportada. Isto surgiu neste ultimo mês e meio!

- Temos um cancro galopante!

- Diga-me doutor, quais são as hipóteses? - pergunta o meu marido muito aflito e com os olhos a brilhar imenso.

O médico olhou para o meu marido, sacudiu a cabeça, e diz-lhe:

- Não lhe posso dizer. Cada doente reage do seu jeito a um tratamento. Só lhe posso dizer que vamos fazer os impossíveis. Serei eu a operar, mas com o tamanho que o cancro tem, não posso operar já, vamos ter que fazer quimioterapia neoadjuvante para o diminuir e torná-lo operável. Depois disso seguir-se á a radioterapia.

- Se eu me safar, quanto tempo vai demorar o tratamento? - pergunto eu.

- Cerca de nove a dez meses. Vamos já marcar uma consulta de oncologia, e volta para mim quando for para a operação.


A sentença estava ditada. Tinha uma espada de morte por cima da minha cabeça.


Como dizer ás minhas filhas?

Como dizer-lhes que a mãe está muito doente, tão doente que pode não continuar cá para elas?


Nunca se está preparado para morrer!

Com 40 anos não se está a pensar na morte. Com 40 anos temos ainda montes de força e projetos. Temos planos e perspetivas. Imaginamo-nos com os nossos filhos e depois com os nossos netos. Imaginamos uma vida e momentos futuros com as pessoas que amamos. De um dia para o outro cai tudo por terra. Dizem-nos que isso pode nunca passar de nossa imaginação, dizem-nos que poderemos não estar cá para viver esses momentos imaginados.

Por isso, vamos á luta!

Durante vários dias, durante várias semanas, só pensava em como era injusto! Só pensava nos meus amores, queria mais tempo... mais tempo com o meu marido, mais tempo com as minhas filhas. Mais tempo!

Durante várias semanas, eu chorei. Meu marido chorou. Nossas filhas perguntavam-nos porque estávamos tão tristes?


Certo dia, acordo com outro estado de espirito. Chega de chorar! Chega de lamuriar!

Vou ter com o meu marido e digo-lhe:

- Não vou encarar a doença como o fim do mundo. Eu podia estar a vender saúde e ao atravessar a estrada ser atropelada por um camião. Finava-me e acabou-se. Vou encarar o cancro como um camião que está a vir na minha direção, mas como o estou a ver, vou tentar não ser atropelada!


Os momentos que eram mesmo muito complicados emocionalmente - apesar de todos o serem - era quando as minhas filhinhas, sobretudo a mais nova, olhava para mim e dizia:

- Ó mãe tu vais ficar boa?

- Não sei filha. Vou fazer tudo por isso.

- Se não ficares boa vais morrer?

- Muita gente morre desta doença filha. Mas o que a mãe te vai prometer é que vai lutar contra a doença, como uma Leoa!

- Mamã eu amo-te muito, não quero que tu morras.

- A  mamã também te ama muito.

Invariavelmente eu desatava a chorar. A maior parte das vezes tentava esconder delas, mas nem sempre conseguia. Dizia-lhes então, quando apanhada com os olhos marejados de lágrimas, que estava a fazer "uma grande birra"!


A minha filha Nocas, mais velhinha, mas não muito, pergunta-me afinal que doença eu tenho. Falo com ela a sós para a maninha não ouvir.

- A doença que a mamã tem, chama-se cancro.

Ela olha para mim. Não sabendo ainda muito bem o que significa "o cancro", tem ideia de que é muito mau. E chora.

- Mamã, diz-me a verdade, vais ficar boa ou podes morrer disso?

- Espero ficar boa. Mas é uma doença terrível.

- Os médicos disseram que ías ficar boa?

- Não. Eles também não sabem.

E ela chorou mais ainda.

- Mamã, se morreres o que vai ser de mim? Preciso tanto de ti! Eu amo-te tanto!

- Eu também te amo filha.

E nós chorámos...


Alguns meses antes, havia pensado que qualquer dia telefonaria ao meu pai, até porque ele havia cumprido com o que dissera: não nos incomodar e deixar-nos viver a nossa vida, sem se intrometer. O tempo foi passando e ainda não o havia feito. Durante anos, não falei com os meus pais. Não tinham aceitado o meu marido, não tinham aceitado o nosso casamento. Fomos viver para longe deles, fomos fazer a nossa vida, fomos viver o nosso amor, fomos ter os nossos filhos.

Passados anos, acabo por pedir ao meu pai para á terra onde moramos para falarmos.

- Quando é que queres que o pai vá aí?

- Para a semana, pode ser? - não lhe queria dar uma noticia daquelas antes do Natal, não era prenda para ninguém.

- Claro que pode.

E combinámos o dia.

E ele veio.


Encontrámo-nos num café. Falámos sozinhos durante duas horas. Acertámos as nossas agulhas. Falei-lhe da doença.

- Se quiseres fazer parte da nossa vida, é agora, ou poderá nunca mais ser. Porém o passado tem de ficar para trás. E o fazer parte de nossa vida implica falares com o meu marido, ele é a minha vida.

- Falo com o teu marido, desde que ele me trate bem, eu trato-o bem.

- Ninguém vos pede para andarem aos beijinhos, nem eu que sou tua filha vou andar contigo aos beijinhos. Ainda há muita mágoa. Mas como acabaste por nos respeitar como prometeste, por isso estamos aqui. Pelo menos estamos a falar. Mas vou pedir-te uma coisa.

Após termos falado os dois, fomos ter com o meu marido. Estavam ambos bastante nervosos. Fizeram um esforço mutuo para me fazer feliz.

O tempo foi passando, eles foram-se conhecendo. Ironia da vida e teimosia das pessoas, com o passar do tempo, descobriram que gostam um do outro.


Foi preciso um cancro para o meu pai conhecer o genro e as netas!

Ele ficou encantado por finalmente ver as minhas filhas, suas netas, seu sangue.


Numa próxima visita de meu pai, avisei-o de que dali a pouco tempo iria ficar careca. Ía começar a fazer a quimioterapia.


Como não tinha as veias suficientemente boas para me injetarem o "veneno" nas veias, tive que colocar um cateter. Doeu horrores. A anestesia local, não me impediu de sentir o cateter a ser colocado e a roçar no osso. Nesse dia, dei-me conta que o nosso corpo quando queimado cheira a carne de porco. O lazer a queimar a minha carne, provocava um cheiro doce e enjoativo, a porco.


Dois dias depois, comecei a minha primeira quimioterapia. O meu amor sempre do meu lado, passou o tempo todo a dar-me forças. Cada tratamento durava mais de três horas. Três horas a levar "veneno" para dentro das minhas veias, para dar cabo daquele cancro que queria dar cabo de mim.


Um dia depois tinha que levar uma injeção: o PEC. Os químicos iam dar cabo do que era mau - o cancro - mas também do que era bom - os glóbulos brancos. Os meus soldadinhos brancos íam ser destruídos. Por isso, tinha que levar aquela injeção, para dar um "choque" na minha medula, para ela desatar a fabricar glóbulos brancos.

Dei a injeção a mim mesma. Tinham-me avisado que ía doer durante 48 horas.

Doía... e de que maneira! Doíam-me todos os ossos do meu corpo, doíam-me os maxilares, doíam-me os dentes, doíam-me as mãos, doíam-me as pernas, doía.... Conseguia sentir todos os ossos do meu corpo... a doer! Os analgésicos apenas abrandavam a dor, nunca a paravam. Até quando adormecia - cansada das dores - gemia!

Muitas vezes menti ao meu marido.

- Está a doer amor?

- Não, os comprimidos estão a fazer efeito.

Mentia por uma boa causa.

Eu sofria de dor, ele sofria por me ver sofrer. Eu não queria que ele sofresse.


Esse era o primeiro. Já só faltavam mais cinco tratamentos como aquele.


Tinham-me avisado que passadas duas semanas o meu cabelo caíria. Não queria que minhas filhotas vissem o meu cabelo a cair. Por isso, avisei-as de que iria rapar o meu cabelo. Vejo os olhos delas a brilhar. Brinco com a situação.

- Imaginem que a mamã vai para a tropa. Se fosse soldado andaria de cabelo quase rapado.

Combinámos que faríamos isso em família, num fim de semana. As minhas filhotas fizeram-me uma caixinha, que pintaram e forraram com algodão. Chegaram-se ao pé de mim e disseram-me:

- Mamã é para guardares o teu cabelo.

Não consegui resistir. Chorei!

- Mamã não chores - diz-me a minha Nitinha.

- A mamã não está a chorar, está a fazer uma birra!- digo eu para animá-la.

Vou para a cozinha, e fecho a porta.

O meu sogro rapou-me o cabelo. O meu marido entrava e saía. A minha sogra entrava e saía. Estávamos todos nervosos e chocados. Eu sempre tivera o cabelo bastante comprido. Cada tesourada, cada madeixa cortada, colocada com carinho dentro da caixinha. Finalmente estava rapado.

Vou ter que ir mostrar ás filhotas. Ai, ai!

Saio da cozinha com uma falsa alegria e brinco com elas:

- Aqui estou eu, a G.I. mamã!

A minha pequenota, diz-me:

- Gosto mais de ti com cabelo! - diz ela na sua inocência.

- Pois filha eu também, mas agora vou para a guerra! E estou numa operação ultra-secreta, que tem o nome de código "acabar com o bicho!".


Fazemos a segunda quimioterapia exatamente no dia de anos da Nita.

Sim, fazemos, O meu marido e eu fizemos os dois todas as quimioterapias. Como me disseram, o cancro é uma doença da família, não era só minha. O meu papel era ter força suficiente - e sorte - para sobreviver, mas a minha família também ía sofrer e ía viver a minha doença.

Já só faltam quatro.

Á saída do hospital vamos a correr até ao infantil, para festejar os anos dela. Cansada mas feliz por estar viva, ía festejar os seis anos da minha pequenota. Quem sabe se cá estaria para festejar o próximo aniversário.


Com a segunda dose de veneno, é que fiquei com o crânio lisinho que nem um rabinho de bébé! Fui tomar um duche. Passo a mão pela cabeça, e vejo... tudo a cair! É verdade, sabia que ía cair. É verdade, que tinha rapado o cabelo. Mas...

Sentei-me no chão da banheira a chorar, com a água a cair do chuveiro para cima de minha cabeça... careca.


Muito eu amo o meu marido. Sim, sei que já  lho disse um milhão de vezes. Mas nunca o direi que chegue. Nunca em momento algum ele me deixou pensar que eu era menos mulher, ou que era menos bonita. Era bonita aos olhos dele quando tinha dois seios, continuo bonita aos olhos dele agora que só tenho um. Era bonita quando tinha cabelo, continuei bonita careca. Era bonita quando era magra, continuei bonita quando inchei.


Passados 4 meses faço a sexta quimioterapia. O tratamento tem estado a fazer efeito. O caroço tem vindo a diminuir. Não desapareceu, mas ficou mais pequeno. Podíamos operar!


Dali a um mês, a operação!

Ai que não me aguento de nervos!


Chegou o dia.

Vamos lá tirar este bocado de carne. Vamos lá tirar esta coisa do meu corpo.

Nunca tinha feito uma anestesia total. Foi a primeira vez. Só me lembro de estar a falar com a anestesista e a fazer-mos umas piadas... e ... apagaram-se as luzes.

Acordo na sala de recobro. Passado um bocadinho levaram-me para o meu quarto. Estavam lá á  minha espera o meu rico marido e o irmão. Eles estavam stressados, eu quando os vejo desato a rir e a brincar. Pudera! Estava VIVA!

E nada como sentir-se viva para ter uma fomeca. Qual chá qual quê! Eram onze da noite, estava em jejum há quatorze horas.

Bem disposta e com fome! Trouxeram-me um lanchinho reforçado. E adormeci...


Uma semana no hospital, uma vontade terrível de voltar para casa.


Depois disso, ainda havia a radioterapia a fazer.

Eu que sempre tinha tido um cuidado extremo para não ir para a praia nas horas em que o sol está mais forte, ía agora levar com uma boa dose de radiações! Vinte e cinco sessões. A minha pele aguentou bem até á 20ª sessão. Depois tivemos rosbife mal passado. A minha pele não aguentou mais... e queimou!

E depois sarou.

E ainda cá estou.


Cá estou, mas marcou!


Não consigo ouvir falar que alguém tem cancro que me dá vontade de chorar. Não consigo mais passar á frente daquelas banquinhas que fazem peditório para angariar fundos para a luta contra o cancro e ficar indiferente.


Muito ou pouco, dou sempre qualquer coisa. Pouco a pouco se pode fazer muito. Não tivesse sido esse "pouco a pouco" que muitos foram dando, eu hoje não estaria cá. Com esse "pouco a pouco" podemos ajudar os nossos filhos, ou os nossos netos. O cancro não acontece só aos outros. Pode acontecer a qualquer um de nós. Aconteceu-me a mim.


Quando era mais nova, certa vez vi um filme em que a mãe da protagonista principal, ficara com cancro.

A filha perguntou á mãe - Are you going to die?

- Not today! - foi a resposta da mãe.


... Not today!